Você tem uma ideia. E agora? – Parte 2

Na primeira parte desse post, você recebeu dicas de como classificar seu livro em gênero, uma estimativa para o tamanho da sua história, como escolher seu público alvo e escreveu um pequeno resumo desenvolvendo a sua ideia, mas seu trabalho está só começando.

Agora, vem a parte mais divertida, então, mãos à obra.

– Personagens

Existem três tipos de personagens numa história:

– Principais – eles são o coração do seu livro. Imagine tudo o que puder sobre eles: nome, idade, cidade onde moram, profissão, descrição física, qualidades e defeitos, família e amigos, passatempos, tudo de importante que aconteceu com eles e que pode influenciar sua história. Isso não significa que você vai descrever todos esses detalhes no seu livro, mas é essencial que você os conheça a fundo.

– Secundários – eles não são tão importantes para o desenvolvimento da sua história quanto seus personagens principais. Escreva somente o básico sobre eles: nome, relacionamento com os personagens principais, uma breve descrição física, os detalhes sobre os passados deles que são relevantes para a trama e porquê eles estão na história.

– Terciários – eles são apenas mencionados brevemente. Para manter a coerência, faça uma lista com os nomes e porquê eles estão na história para você não se perder.

 – Ponto de Vista

Seu narrador deve ser aquele que está presente em todos os acontecimentos importantes da sua história, e para contá-la, você tem as seguintes opções de ponto de vista:

– Em primeira pessoa – o narrador em primeira pessoa, conta a história usando o pronome “Eu”. Nesse ponto de vista, o leitor fica exposto aos sentimentos desse personagem, como se estivesse dentro da cabeça dele. A narrativa é parcial, e tudo o que acontece com os outros personagens, é contado sob sua perspectiva.

– Em segunda pessoa – esse é o tipo de narrativa menos comum, e usa o pronome “Você”. É como se o autor estivesse se dirigindo diretamente ao leitor.

– Terceira pessoa, limitado – é igual ao narrador em primeira pessoa, mas o autor usa o pronome “Ele/Ela”. Nesse ponto de vista, o leitor também só tem acesso aos outros personagens através dos olhos do narrador.

– Terceira pessoa, onisciente – esse é o tipo mais complexo de narrador. Ele conta a história em terceira pessoa, mas sabe tudo sobre todos os personagens. Escolha esse tipo de narrativa somente se você tem total confiança na sua habilidade de pular da cabeça de um personagem para o outro e para o outro, sem confundir o leitor.

Depois de escolher o ponto de vista, você também precisa decidir em que tempo verbal esse narrador vai contar a história, presente ou passado.

– Presente – conta a história como se estivesse acontecendo naquele momento.

“A moça entra na loja e sai cheia de sacolas.”

Esse tempo verbal dá a sensação de agora à sua história. Ele é mais fácil de escrever porque simplifica o uso dos verbos, mas isso pode fazer sua escrita soar pouco natural. Evite escrever nesse tempo, se lhe parecer forçado demais.

– Passado – conta uma história que já aconteceu.

“A moça entrou na loja e saiu cheia de sacolas.”

É a maneira mais comum e tradicional, e, portanto, mais familiar para os leitores. Quando você escreve usando os verbos no passado você tem mais controle sobre a história e é mais fácil manipular a passagem do tempo. Outra vantagem, é que você não precisa ser muito detalhista em suas descrições, uma vez que a nossa memória guarda somente o que realmente foi importante em cada acontecimento.

Não existe certo ou errado. Escolha o que você achar melhor para a sua história, mas depois que escolher um ponto de vista e tempo verbal, mantenha-os consistentes até a última folha. A única exceção é se for preciso adicionar um flashback, que sempre deve ser escrito no passado, mesmo se sua história estiver sendo escrita no presente.

 – Localização

Nessa etapa, você deve descrever resumidamente os lugares por onde seus personagens vão passar, a cidade e o bairro, a estação do ano, como o seu personagem deve se vestir e se comportar em cada lugar, etc.

Se você está escrevendo uma história de ficção científica ou fantasia, essa é a hora de ir fundo na criação do universo do seu livro e descrevê-lo o mais detalhadamente possível. Use desenhos e mapas, se for preciso. Novamente, isso não quer dizer que você vai apresentar todos esses detalhes para o leitor, mas você precisa conhecê-los bem para não cometer erros depois.

 – Pesquisa

Identifique os assuntos que são fundamentais para o desenvolvimento da sua história e sobre os quais o seu conhecimento não é tão profundo quanto deveria ser. Por exemplo, se o seu livro é baseado numa mulher incapaz de ter filhos, pesquise o que pode ter acontecido com ela para que essa condição seja uma parte natural da sua trama. Use a internet, leia livros ou entreviste um perito na matéria. Tome notas detalhadas e não se desfaça de nenhuma informação, você pode precisar delas novamente para outra história.

 

somerset

 

Ufa! Finalmente, prontos para começar a escrever, certo?

Não.

Agora vem a parte mais importante de todas, escrever a estrutura da sua trama.

 – Visão Geral

Chegou a hora de descrever, em detalhes, a sua história. Existem várias maneiras de fazer isso, é só uma questão de descobrir com qual você trabalha melhor. Algumas sugestões:

– Crie uma lista de itens, por exemplo:

  • Maria tem uma discussão com a mãe antes de sair de casa;
  • Maria é atropelada e recebe ajuda de um estranho;
  • A mãe não atende o telefone e o estranho a leva para o hospital;
  • Maria se sente atraída por ele e não quer que ele vá embora, por isso finge estar pior que realmente está;
  • E assim vai…. Dá para ter uma ideia, né?

– Desenvolva a sua síntese – reescreva aquela síntese que você já criou, aprofundando a trama, desenvolvendo os personagens e detalhando todos os acontecimentos e como você pretende criar e resolver os problemas do seu personagem principal.

– Capítulo por capítulo – essa é uma boa maneira de controlar o tamanho da sua história, estabelecendo uma faixa limite de palavras para cada capítulo.

Use um calendário para situar os acontecimentos essa é minha maneira preferida, porque também me dá uma ideia da passagem de tempo entre os eventos mais importantes.

Ou se você não gostou de nenhuma dessas sugestões, invente o seu jeito. Você está escrevendo um mapa para você mesmo e nada o impede de mudar de ideia e de caminho a qualquer hora. O mais importante nessa etapa, é tentar esquematizar a sua história em três atos: começo, meio e fim. Esse tipo de estrutura é o mais antigo e prático, e, por isso, o preferido pelos autores atuais.

 

Estrutura de Três Atos

tres atos

(esquema desenvolvido por: http://goteenwriters.blogspot.com.br)

No começo (ou primeiro ato), você apresenta o mundo da sua história. Revele seu personagem principal, quando e onde ele está e o que ele quer. Introduza o antagonista e os motivos que ele tem para atrapalhar a vida do personagem principal. Crie um acontecimento que mude a vida do seu protagonista, ganhe a simpatia do seu leitor e o obrigue a continuar lendo a próxima parte.

No meio (ou segundo ato), é onde acontecem os confrontos entre os personagens. É aqui que você desenvolve as tramas secundárias e aprofunda a trama principal. Para continuar a agarrar a atenção do seu leitor, não deixe o seu protagonista conseguir tudo o que quer. Crie tensão e conflitos. E, finalmente, introduza a crise que vai levar ao clímax do final do livro.

No fim (ou terceiro ato), temos a resolução de todos os problemas da história. Você não deve deixar solto nenhum fio da sua trama. Crie um senso de continuidade, o que a história significou e o que você gostaria de deixar seu leitor pensando?

 

Pronto, agora sim, você já tem ferramentas suficientes para começar, mas lembre-se, essa preparação é apenas um aquecimento, não gaste tanto tempo nela que quando chegar a hora da maratona, você já esteja exausto e desmotivado.

E o mais importante, essa não é uma fórmula que seguida passo a passo vai garantir que sua história seja o sucesso literário do ano. Use o que funciona para você e descarte o que você acha que é perda de tempo. E, principalmente, não deixe que nenhum tipo de regra enrijeça seu texto e tire sua diversão de escrever. Emoção é o que faz uma história sair da mesmice e quebrar o molde.

 

Se alguns desses conceitos parecem muito abstratos para você, faça o seguinte exercício. Pegue o livro que você está lendo no momento e responda ao questionário:

  • Qual o gênero do livro? Ele se encaixa em mais de um gênero?
  • Quantas palavras, ou páginas, ele tem? Você achou a história curta? Ou, pelo contrário, ela poderia ter sido contada em menos palavras sem afetar a qualidade do livro?
  • Qual o público que você supõe que o autor tentou atingir? Como ele adequou o vocabulário e a narração ao leitor alvo?
  • Faça uma lista com os personagens. Tente dividi-los em principais, secundários e terciários. Liste algumas informações sobre cada um deles. Onde o autor gastou mais tempo descrevendo os detalhes e as particularidades de cada um?
  • Quem é o narrador e sob qual ponto de vista a história foi contada? Qual o impacto que isso criou na narração? Você faria diferente?
  • Os locais foram bem descritos? A ambientação fez com que você se sentisse como se estivesse lá, junto com os personagens? O autor usou sons e cheiros para tornar a caracterização mais realista?
  • O autor fez uma pesquisa sólida sobre os pontos mais importantes da história? Houve algum assunto que não foi bem explicado e que obrigou você a parar a leitura e pesquisar por conta própria?
  • Tente dividir a história em começo, meio e fim. O autor deu informações na introdução da história que teriam tido mais significância se fossem apresentados mais tarde? Ou que talvez não precisassem fazer parte da narrativa de jeito nenhum? Qual o incidente que muda a vida do personagem principal e o empurra para o meio? Os confrontos entre o herói e o antagonista são emocionantes e trazem tensão para a história? Quantos incidentes atrapalham a vida do personagem principal? E quantas vezes ele consegue o que quer com facilidade? O clímax da história é surpreendente? Se não, o que o autor poderia ter feito para torná-lo menos previsível? O problema do herói foi resolvido de maneira lógica e satisfatória, sem fórmulas mágicas e apelativas?

Até a próxima!

Não esqueça de deixar seu comentário. Existe alguns desses passos que você gostaria de ver descrito com mais detalhe? Você acha que seu autor preferido é um planejador? Que aspectos da escrita dele o fez pensar assim?

 

Fontes:  http://www.lifeofastoryteller.com/2017/03/20/how-to-write-a-novel-outline/

http://www.writersdigest.com/online-editor/the-pros-and-cons-of-writing-a-novel-in-present-tense

https://selfpublishingadvice.org/writing-tense/

http://goteenwriters.blogspot.com.br/2012/09/understanding-three-act-structure.html

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